24 maio 2015
Meu conto – Quando As Luzes Se Apagam

Em fevereiro, fui convidada a escrever um conto para a coluna “Ficções Livrescas” da revista SuperPedido (distribuída para os livreiros). Eis que o conto saiu na última edição e minha editora me enviou um exemplar da revista. Fiquei muito feliz de ver o conto publicado. Escrevi com muito carinho e, para mim, foi um desafio. Tenho dificuldade para escrever textos curtos e passei horas revisando o conto, tirando daqui e dali para poder caber na quantidade de caracteres permitidos.

Vou postar aqui para vocês lerem. Se gostarem, não deixem de me dizer, ok? O Mural de Recados está aqui para isso rsrs

[ Quando as luzes se apagam ]

Fernanda era uma funcionária que gostava de ser a última a sair e ser a responsável por fechar as portas da livraria. Aquele tinha sido um dia cheio, afinal. Após uma sessão de autógrafos de um autor famoso e uma fila interminável de leitores, ela merecia um descanso. Ignorando o horário tardio, Fernanda se sentou numa das poltronas de couro que ficavam espalhadas pelo local e descalçou os sapatos.

O silêncio que reinava ali dentro era mesmo magnífico. A livraria, pequena e aconchegante, tornara-se seu lugar favorito. O piso estava sempre muito bem polido, as estantes de mogno, antigas e tradicionais, conservavam a madeira belíssima.

A iluminação era intimista, mas acima de algumas poltronas, havia luminárias potentes para o visitante fazer uma leitura. Além disso, o ar ali dentro era diferente. De algum modo, o cheiro inebriante de café com biscoitos amanteigados estava sempre presente, mesmo que não houvesse nenhuma das duas coisas à venda.

Fernanda gostava de estender seu horário e ler um pouco, antes de fechar a loja. Naquele dia não foi diferente. Depois de puxar as pernas para cima, dobrando-as sobre a poltrona, abriu o livro escolhido do dia.

Vinte minutos depois, sobressaltou-se quando as luzes se apagaram. Tateou em busca do celular no seu colo e acionou a lanterna do aparelho. Decidiu que era hora de ir para casa, mas ao se levantar, ouviu risadas que vinham dos fundos da livraria. Seu coração parou por um instante antes de retomar as batidas.

— Quem está aí? — perguntou, virando-se para trás com a lanterna iluminando as estantes. — Tem alguém na loja?

Sem receber resposta, Fernanda se encaminhou para a seção de literatura brasileira, que parecia ser o local de origem da perturbação. Apontava a lanterna para os lados sempre que passava por um corredor escuro, mas ao contornar a estante de autoajuda, porém, ela estacou, assombrada com a visão.

— Pois não? — perguntou ao estranho de costas para ela.

A jovem achava impossível aquele rapaz ter entrado sem que ela percebesse. Lembrava-se muito bem de ter trancado a porta depois que o último cliente deixou a loja. Contudo, sua experiência como vendedora solícita falou mais alto. Ela não podia simplesmente expulsar o cliente.

— Posso ajudar em algo? — Fernanda se aproximou do homem, que rapidamente virou-se para ela. Era lindo, bronzeado e usava um chapéu.

Ele arregalou os olhos quando a luz forte da lanterna o capturou. Fernanda pensou em se aproximar mais e obriga-lo a se retirar, mas não conseguiu se mover quando um garotinho sem camisa e vestindo apenas um short vermelho saiu detrás do rapaz. Ela não sabia o que era mais absurdo: o cachimbo na mão da criança ou o fato dela ter somente uma perna, como se fosse um… não! Ela se recusava a pensar nisso!

— Ela está falando com a gente? — o belo jovem de chapéu perguntou ao menino.

— Acho que ela pode nos ver.

Fernanda soube que estava delirando. Talvez seu almoço estivesse estragado, pois se sentiu doente. Sentou-se no chão e apoiou as costas numa estante, para então fechar os olhos. Ficou assim por alguns segundos, mas ao abri-los novamente, viu que as duas figuras continuavam ali.

— Quem… quem são vocês? — perguntou e levou uma mão à cabeça, que latejava.

— Como assim quem somos nós? A senhorita trabalha numa livraria e não sabe? — O menino parecia ter se magoado. — É tão difícil reconhecer um saci?

— Um… — ela engasgou — o quê?

Aquele menininho que não devia ter mais de oito anos colocou as mãos na cintura e prendeu o cachimbo entre os dentes ao se aproximar dela. Agora parecia bem mais velho, além de furioso.

— Saci! Preciso ser mais claro que isso? Eu não preciso de apresentações! E não me olhe com esta cara! Se eu fosse um lobisomem ou um anjo, você estaria radiante!

— Ou um vampiro — o rapaz de sorriso perfeito falou.

— Você é? — Fernanda, que achava estar prestes a desmaiar, não conseguiu resistir. — Um vampiro?

— Caramba, não! — Ele jogou as mãos para o alto e agachou-se perto dela, apoiando as mãos nos joelhos. — Sou o boto, muito prazer.

A gargalhada de Fernanda foi tão alta que nem ela mesma reconheceu como sua. Depois, largou o celular no chão e escondeu o rosto com as mãos, desejando recuperar a consciência o mais rápido possível.

— Acho que ela está em negação.

— É lógico que está! — o garotinho bufou. — Você não vê? Ela nem deve saber muita coisa sobre nós. Não temos asas, nem dentes afiados, não usamos varinhas mágicas, não nos transformamos em animais…

— Bem, sobre esta última questão, fale apenas por você.

— Não tem graça, Boto!

Fernanda destapou o rosto, mas usou as mãos para cobrir as orelhas. Talvez se ela bloqueasse aquele som, conseguisse interromper a alucinação. Ficou cantando uma de suas músicas favoritas enquanto mantinha os olhos fechados. Aos poucos, o som das vozes foi diminuindo, diminuindo… e então cessou.

Ela finalmente abriu os olhos e baixou as mãos. Não precisava mais da lanterna, pois a eletricidade tinha voltado. Agora, onde segundos antes estavam os dois rapazes, não havia nada além de partículas de poeira pairando pelo espaço vazio, iluminado pela fraca luz da lua que entrava pela janela.

— Estamos sendo esquecidos, Boto. Ninguém se importa mais…

A voz que ela ouviu parecia estar a quilômetros de distância. Justo quando ela pensava ter se livrado da alucinação.

Fernanda se recompôs rapidamente, ansiosa para fechar a livraria e ir para sua casa. Não sabia mais o que era fruto de sua mente e o que era real. Tinha certeza que acordaria ainda mais confusa no dia seguinte e, para piorar, com uma bela enxaqueca.

No entanto, quando levou alguns exemplares sobre o folclore brasileiro para espalhar pela vitrine, sentiu-se como se fizesse parte de alguma coisa importante. Antes de passar pela porta, achou ter escutado mais algumas risadas. É claro que depois de passar a chave pela fechadura e virar de costas para ir embora, não viu as duas figuras que dançavam no escuro.

[ FIM ]



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